Oferecem a Bíblia e os escritos de
Ellen G. White alguma base para a crença na existência desses estranhos
animais?
Anos atrás, depois de terminar uma
palestra para universitários e profissionais liberais, fui abordado por um
pastor. Ele me pediu que tentasse convencer a esposa dele sobre a existência
dos dinossauros.
Ela era professora e se recusava a
ensinar os alunos sobre esse tema. Compreendi que atrás daquela negativa havia
uma luta para compreender o mistério que deixa perplexas algumas pessoas e
fascina outras: Como explicar a passada existência (e extinção) dos
dinossauros, num contexto bíblico?
A negação da existência dos
dinossauros tem se tornado mais difundida do que gostaríamos de admitir, mesmo
considerando nossa sociedade científica com pesquisas altamente avançadas em
todas as áreas, incluindo geologia e paleontologia. Essas ciências parecem fora
de lugar em nossas instituições educacionais e raramente são consideradas por
nossos jovens na escolha de sua carreira profissional. Como cristão e
paleontólogo, tenho que enfrentar diariamente a noção de uma evolução biológica
envolvendo milhões de anos e posso compreender que algumas pessoas temem ser
envolvidas por uma filosofia contraditória às Escrituras.
Entretanto, é possível estudar
fósseis, rochas e evolução, sem renunciar à fé. Nossa apreciação da beleza e do
mistério da criação da Terra e sua história subsequente depende em grande parte
de como e o que professores e pastores estão ensinando nas igrejas e escolas.
No museu e na TV
American Museum of Natural History
NY, EUA
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Se você já visitou um museu de
história natural, provavelmente viu grandes esqueletos de dinossauros. Também
pode ter visto reproduções animadas em que, no caso de documentários da
televisão, eles parecem vivos e reais. Ao assistir a tais animações, o
espectador deve considerar alguns detalhes. Primeiramente, devemos aceitar que
os dinossauros existiram por um período de tempo na Terra e que, em certos
lugares, eles pareciam numerosos. Paleontólogos têm encontrado evidências de
sua existência em todos os continentes, incluindo Antártica. Essas evidências
incluem ossos, ovos, tocas e pegadas. Rastros e pegadas são abundantes e não
podem ser associados a nenhuma outra criatura fora do que conhecemos como
dinossauros.
Em segundo lugar, devemos saber
que os esqueletos encontrados em museus não são tipicamente reais, mas
réplicas. Os ossos originais são muito valiosos e delicados para ser expostos
ao público; portanto, são armazenados em lugares mais seguros. Além disso, os
esqueletos dos museus são ajuntamentos de réplicas de ossos de várias espécies
oriundas de lugares distantes. Os paleontólogos são capazes de compor a
arquitetura do corpo dos dinossauros, embora não possam ter todos os elementos
da mesma criatura. Assim, as réplicas encontradas nos museus são razoavelmente
confiáveis. Entretanto, animações vistas na TV são mais especulativas,
especialmente no que tange à cor, fisiologia, comportamento e assim por diante.
Desaparecimento
Na coluna geológica, vestígios de
dinossauros aparecem em camadas de rochas que os paleontólogos chamam de
Triássico, Jurássico e Cretáceo. Essas camadas sedimentadas, amontoadas uma
sobre a outra, mostram características específicas, incluindo as de certas
espécies fósseis como moluscos, répteis, peixes, dinossauros e organismos
microscópicos (diatomácea, algas) que habitaram os oceanos. Alguns
paleontólogos creem que os dinossauros, bem como outros grupos de animais e
plantas, desapareceram subitamente em consequência do impacto de um meteorito gigante
65 milhões de anos atrás. Outros duvidam disso, por várias razões.
Muitos cientistas criacionistas
acreditam que os dinossauros desapareceram junto com outras espécies, durante o
dilúvio universal descrito em Gênesis. Esse cenário poderia incluir atividade
de um meteorito resultando em tsunamis, atividade vulcânica e emissão de
dióxido de carbono, sulfeto e outros elementos químicos prejudiciais a plantas
e animais. Portanto, a ideia de um meteorito impactando a Terra não é
necessariamente incompatível com o modelo bíblico do dilúvio.
Apesar da falta de consenso entre
os cientistas sobre a causa do desaparecimento dos dinossauros, a mídia e a
imprensa pseudocientífica decidiram que a teoria do impacto do meteoro é a
única explicação válida. Isso está longe da realidade. Os dinossauros
desapareceram, mas não sabemos exatamente quando nem por quê. Entretanto, a
possibilidade de sua extinção durante o dilúvio do Gênesis (com ou sem impacto)
pode ser vista como hipótese científica plausível e merece consideração.
Convivência com Humanos
Muito tem sido escrito e falado
sobre certas evidências que supostamente mostram dinossauros e seres humanos
juntos. Elas incluem o que é interpretado como pegadas de humanos e
dinossauros, quadros pré-históricos em cavernas e cerâmicas, em que figuras
humanas aparecem junto a criaturas excepcionais muito semelhantes às atuais
reconstruções desses répteis gigantes. Mas, estudos científicos têm mostrado
que esses traços têm sido mal interpretados.
Analisemos, por exemplo, os
alegados sinais de “humanos” e dinossauros encontrados no leito do Rio Paluxy
no Texas. Poucas décadas atrás, cientistas proclamaram que essa era uma segura
evidência contra a teoria da evolução e prova da ocorrência de um dilúvio
universal. Intrigados por essa afirmação, vários cientistas evolucionistas e
criacionistas estudaram detalhadamente as marcas encontradas nas rochas. Nesse
lugar específico, o leito e a margem têm muitas marcas por causa de erosão.
Através das marcas deixadas sobre a rocha, causadas pela circulação da água,
podemos distinguir se o traço do dinossauro é verdadeiro ou falso.
Há também estudos feitos em
laboratório. Se uma marca é autêntica, deve mostrar as camadas achatadas de
sedimento rochoso sob ela, por causa do peso do animal. Para testar essa
deformação característica, cientistas cortaram transversalmente a marca e não
observaram presença dela. Concluíram que o molde não se tratava de real pegada
humana, mas resultava de erosão pela natureza ou forjada pelo homem. Estudos
posteriores mostraram que tais “marcas” e desenhos foram deliberadamente
colocados por fanáticos defensores da coexistência de humanos e dinossauros,
acarretando, assim, zombaria e rejeição no mundo acadêmico.
Na Bíblia
O relato da criação em Gênesis 1
fala de um Deus que criou vida marinha bem como pássaros no quinto dia; e o
restante dos animais, no sexto dia. Embora os répteis sejam citados, os
dinossauros não são mencionados, o que não deve nos surpreender; afinal, nos
dias de Moisés, a palavra “dinossauro” não existia, nem ele estava obrigado a
mencioná-los. Ele também não mencionou outros grupos de animais como, por
exemplo, besouros, tubarões, estrelas-do-mar.
O fato de a Bíblia não citar os
dinossauros pelo nome não prova que Deus não os tivesse criado; muito menos a
estranha aparência deles. Hoje existem muitos animais tão estranhos como os
dinossauros – observe o ornitorrinco e o canguru – que não atraem muito a
atenção. Algumas pessoas creem que os dinossauros surgiram como resultado da
maldição depois do pecado de Adão e Eva, mas a Bíblia não emite luz sobre isso,
nem identifica explicitamente os animais que mudaram como resultado do pecado
nem qual foi o tipo de mudança.
Muitos cientistas criacionistas
acreditam que os dinossauros desapareceram durante ou logo após o dilúvio. Mas,
a Bíblia também não nos dá indícios sobre o destino deles. Por causa desse
silêncio bíblico, o fato de que os dinossauros desapareceram durante uma
catástrofe mundial conhecida como dilúvio é uma hipótese que deve ser
considerada através de pesquisa científica. A comprovação de tal hipótese deve
ser feita através de dados geológicos e paleontológicos, não por forçar a
Bíblia a dizer o que ela não diz.
Finalmente, há quem pense que os
dinossauros sobreviveram ao dilúvio, mas logo desapareceram por não se terem
adaptado ao novo ambiente. Essa é outra possibilidade, pois havia dinossauros
na arca e, talvez, tenham desaparecido durante a colonização pós-diluviana. A
Bíblia menciona duas estranhas criaturas: beemote (Jó 40:15-18) e leviatã (Jó
41:1), que alguns interpretam como possíveis exemplos dos dinossauros
pós-diluvianos. Entretanto, a maioria dos eruditos não aceita essa explicação,
e esses termos são geralmente traduzidos respectivamente como hipopótamo e
crocodilo. Não estão relacionados aos dinossauros.
Ellen White
O termo dinossauro foi usado pela
primeira vez em 1842, pelo zoólogo inglês Richard Owen, para nomear um grupo de
fósseis répteis então descobertos. O uso do termo se expandiu enquanto novas
descobertas aconteciam na Europa e América do Norte. No tempo em que Ellen
White escreveu suas primeiras declarações sobre criação, dilúvio, ciência e fé
(1864), o termo dinossauro já era comum nos livros e revistas. Entretanto, ela
nunca usou esse termo nem qualquer outra palavra similar para se referir a
esses répteis extintos.
Numa breve declaração, em 1864,
ela escreveu: “Todas as espécies de animais que Deus criou foram preservadas na
arca. As espécies confusas que Ele não criou, e que foram resultado de
amálgama, foram destruídas no dilúvio”.1 Essa é uma declaração favorita entre
alguns adventistas para os quais ela explica os organismos extintos, incluindo
dinossauros, bem como fósseis com características intermediárias, também
conhecidos como fósseis em transição, ou seja, aqueles que, de acordo com a
teoria da evolução, mostram mistura de características entre dois grupos de
animais ou plantas considerados consecutivos no tempo. Exemplo disso são os
répteis parecidos com mamíferos, considerados um degrau intermediário na
evolução.
Muitas pessoas leem nessas
palavras o que nós conhecemos como engenharia genética, indicando que, nos
tempos antediluvianos as pessoas praticavam acasalamento híbrido, resultando em
estranhas formas biológicas.
Entretanto, essa interpretação
apresenta problemas. O primeiro é a dificuldade para definir o que Ellen White
quis dizer com “amálgama”. Estudos mais profundos sobre a declaração não têm
dado uma resposta definitiva, e concluímos que ainda não sabemos exatamente o
significado desse termo.
Um segundo problema é a aplicação
de “amálgama” a casos reais no registro fóssil. Se “amálgama” significa
“híbrido”, como poderíamos reconhecer esse fenômeno entre os fósseis ou entre
animais e plantas dos nossos dias? Como poderíamos determinar que espécies eram
híbridas antes do dilúvio, se elas realmente já existiam? Alguns respondem a
essa pergunta dizendo que as espécies híbridas não sobreviveram ao dilúvio,
precisamente porque Deus não quis. Mas, esse raciocínio é um círculo vicioso
falho porque o critério que usamos para diferenciar os híbridos (extinção) é o
mesmo que usamos para definir o que gostaríamos de diferenciar (híbridos). Em
outras palavras, amalgamação explica seu próprio desaparecimento, e seu
desaparecimento define o que são eles.
Ellen White continua dizendo que
“desde o dilúvio tem havido amalgamação de homens e bestas, como pode ser visto
em variedades quase infindáveis de espécies de animais”.2 Em primeiro lugar, é
importante enfatizar que ela diz “amalgamação de”; não diz “amalgamação entre”
como alguns interpretam. Em segundo lugar, se amalgamação significa formas
intermediárias, híbridas ou criaturas estranhamente formadas, qual é o critério
para reconhecê-las? Se essas foram formadas depois do dilúvio, provavelmente se
tornaram fósseis, e outras teriam sobrevivido até agora. Como podemos
diferenciá-las entre si e de outros organismos vivos que não são híbridos?
Ellen White não dá indícios sobre isso.
No mesmo texto, ela estabelece que
lhe foi mostrado “que animais muito grandes e poderosos existiram antes do
dilúvio, e não mais existem agora”.3 E também disse em outro texto que “houve
uma classe de animais que pereceram no dilúvio. Deus sabia que a força do homem
diminuiria e esses mamutes não poderiam ser controlados por homens fracos”.3
Entre outras, essa declaração a
respeito da vida antes do dilúvio sugere que a profetiza estava se referindo à
existência de uma ampla variedade de animais que não sobreviveram na arca.
Entretanto, não estamos seguros quanto ao significado da declaração; não
sabemos o que eram esses “animais muito grandes e poderosos”. Porém, suas
palavras não estão longe da descrição científica dos dinossauros. Falando
biologicamente, eles são um tanto confusos, não apenas porque alguns são
gigantes, mas também partes do seu corpo (pernas, pescoço, cauda, cérebro) são,
em alguns casos, desproporcionais.
A verdade é que muitas pessoas têm
lutado para encontrar declarações de Ellen White apoiando a ideia de que os
dinossauros não foram criados por Deus, mas resultaram de amálgama antes do
dilúvio, sendo, portanto, condenados ao desaparecimento na catástrofe
universal. Essa pode ser uma possibilidade, mas, depois de minucioso estudo de
seus escritos, não encontramos apoio inequívoco para essa conclusão.
A Escritura não menciona a
existência de dinossauros, pelo menos como nós os compreendemos, nem antes nem
depois do dilúvio. Ellen White também não os menciona, e não estamos
absolutamente seguros quanto ao significado de sua afirmação referente a “animais
muito grandes”. Porém, isso não representa evidência de que eles não existiram.
Ao contrário, as evidências disso são claras: ossos, dentes, ovos, pegadas e
impressões. Mas, em algum ponto da história, eles desapareceram. Sua origem e
seu desaparecimento estão envolvidos num mistério que requer cuidadoso e
rigoroso estudo. E isso não compromete nossa fé nos ensinamentos bíblicos.
Referências:
1 Ellen G. White, Spiritual Gifts (Battle Creek,
MI: SDA Publishing, 1864), v. 3, p. 75.
2 Ibid., p. 35.
3 Ibid., p. 92.
4 Ibid., v. 4, p. 121
Artigo escrito por Raúl Esperante
– Cientista do Instituto de Pesquisa em Geociência, Loma Linda, Califórnia.
Publicado na Revista Ministério Jul/Ago-2010.
Artigo postado originalmente em: Sétimo dia

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