LIVRO A GRANDE ESPERANÇA
Capítulo 1
1. Por que existe o sofrimento?
Muitas pessoas veem os resultados do mal, com suas misérias
e desolação, e questionam como ele pode existir no reino de um Deus infinito em
sabedoria, poder e amor. Aqueles que estão dispostos a duvidar, utilizam isso
como desculpa para rejeitar os ensinos da Bíblia. A tradição e a interpretação
errônea têm obscurecido o ensino da Bíblia sobre o caráter de Deus, a natureza
de Seu governo e a maneira como Ele trata com o pecado.
É impossível explicar a origem dos sofrimentos humanos de
modo a dar a razão de sua existência. Apesar disso, pode-se compreender o
suficiente sobre a origem e o término do pecado, a fim de que seja percebida a
justiça e bondade de Deus. Ele não é, de modo algum, o responsável pelo
surgimento do pecado. Ele não retirou arbitrariamente Sua graça, nem houve
qualquer imperfeição em Seu governo, para dar motivo à rebelião. O pecado é um
intruso, e não pode ser oferecida razão alguma para sua existência. Desculpá-lo
significa defendê-lo. Se fosse possível encontrar uma justificativa para ele,
deixaria de ser pecado. O pecado é a atuação de um princípio contrário à lei do
amor, que é o fundamento do governo divino.
Antes da manifestação do mal, havia paz e alegria por todo o
Universo. O amor a Deus era supremo, e era imparcial o amor de uns para com os
outros. Cristo era um com o eterno Pai em natureza, caráter e propósito – o
único que poderia entrar nas decisões e propósitos de Deus. “NEle foram criadas
todas as coisas nos céus e na Terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos
ou soberanias, poderes ou autoridades; todas as coisas foram criadas por Ele e
para Ele” (Colossenses 1:16).
Sendo que a lei do amor é o fundamento do governo de Deus, a
felicidade de todas as criaturas depende de sua perfeita harmonia com os
princípios de justiça dessa lei. Deus não tem prazer na submissão forçada, mas
concede a todos o poder da escolha, para que possam prestar-Lhe obediência
voluntária.
Houve, porém, alguém que preferiu deturpar essa liberdade. O
pecado se originou com aquele que, depois de Cristo, havia sido o mais honrado
por Deus. Antes do pecado, Lúcifer era o primeiro dos querubins guardiões,
santo e puro. A respeito dele, Deus afirma: "Você era o modelo da
perfeição, cheio de sabedoria e de perfeita beleza. Você estava no Éden, no jardim
de Deus; todas as pedras preciosas o enfeitavam [...]. Você foi ungido como um
querubim guardião, pois para isso Eu o designei. Você estava no monte santo de
Deus e caminhava entre as pedras fulgurantes. Você era inculpável em seus
caminhos desde o dia em que foi criado até que se achou maldade em você. [...]
Seu coração tornou-se orgulhoso por causa da sua beleza, e você corrompeu a sua
sabedoria por causa do seu esplendor. [...] Você pensa que é sábio, tão sábio
quanto Deus" (Ezequiel 28:12-15, 17, 6). "Você, que dizia no seu
coração: Subirei aos Céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu
me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo.
Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo" (Isaías
14:13, 14).
Ao cobiçar a honra que o infinito Pai havia concedido a Seu
Filho, esse chefe dos anjos aspirou ao poder que pertencia somente a Cristo.
Naquele momento, uma nota dissonante desfez a harmonia celestial. Na mente dos
anjos, para quem a glória de Deus era suprema, a exaltação própria era um
prenúncio de grandes males. Nas reuniões celestiais, todos argumentavam com
Lúcifer. O Filho de Deus lhe apresentava a bondade e justiça do Criador e a
natureza sagrada de Sua lei. Ao afastar-se dela, Lúcifer desonraria seu Criador
e traria ruína sobre si mesmo. Mas as advertências apenas despertavam atitude
de resistência. Lúcifer permitiu que prevalecesse sua inveja em relação a
Cristo.
O orgulho alimentou o desejo de supremacia. As honras
concedidas a Lúcifer não despertavam gratidão para com o Criador. Ele desejava
ser igual a Deus. Porém, o Filho de Deus era o reconhecido Soberano do Céu,
igual ao Pai em autoridade e poder. De todas as reuniões divinas, Cristo
participava, mas não era permitido a Lúcifer penetrar no conhecimento dos
propósitos divinos. "Por quê", perguntava o poderoso anjo,
"deveria Cristo ter a supremacia? Por que Ele é honrado acima de
mim?"
Ao deixar a presença de Deus, Lúcifer saiu difundindo o
descontentamento entre os anjos. Ele agia de maneira dissimulada e escondia seu
verdadeiro propósito aparentando ter reverência a Deus. Também esforçava-se em
provocar insatisfação pelas leis que governavam os seres celestiais, insinuando
que elas impunham uma restrição desnecessária. Sendo que os anjos possuem uma
natureza santa, Lúcifer insistia em que eles deveriam obedecer unicamente sua
consciência. Pensava que Deus o tratara de maneira injusta ao conceder honra
suprema a Cristo. Lúcifer alegava não pretender a exaltação própria, e sim
liberdade para todos os habitantes do Céu, a fim de que pudessem alcançar
condição mais elevada de existência.
Deus tolerou Lúcifer durante muito tempo. Não foi rebaixado
de sua posição elevada, nem mesmo quando começou a apresentar suas pretensões
diante dos anjos. Inúmeras vezes lhe foi oferecido o perdão, com a condição de
que se arrependesse e abandonasse seu orgulho. Esforços, que apenas o amor e a
sabedoria infinitos poderiam conceber, foram feitos para convencê-lo de seu
erro. O descontentamento nunca antes havia sido conhecido no Céu. Inicialmente,
nem o próprio Lúcifer compreendeu a verdadeira natureza de seus sentimentos.
Depois de ter sido mostrado a ele que sua insatisfação era sem motivo,
convenceu-se de que as reivindicações divinas eram justas e de que deveria
reconhecer esse fato diante de todos os habitantes do Céu. Se Lúcifer tivesse
feito isso, poderia ter salvo a si mesmo e a muitos anjos. Caso houvesse
desejado voltar a Deus, satisfeito por ocupar o lugar a ele designado, teria
sido reintegrado em seu cargo. Mas o orgulho o impediu de submeter-se.
Continuou a pensar que não necessitava se arrepender, e entregou-se por
completo ao grande conflito contra o Criador.
Todas as habilidades de sua mente brilhante foram então
dedicadas ao engano, a fim de conseguir a simpatia dos anjos. Satanás simulou
haver sido julgado de forma errada, e disse que os demais desejavam privá-lo de
sua liberdade. Depois de interpretar de maneira equivocada as palavras de
Cristo, passou à falsidade aberta, acusando o Filho de Deus de tentar
humilhá-lo diante dos habitantes do Céu.
A todos aqueles que Lúcifer não pôde corromper e levar para
o seu lado, ele acusou de ser indiferentes aos interesses dos seres celestiais.
Representou com falsidade o Criador. Era sua tática deixar os anjos perplexos
ao utilizar argumentos enganosos a respeito dos propósitos divinos. Tudo o que
era simples ele envolvia em mistério, e por meio de astuta perversão lançava
dúvida às mais claras afirmações de Deus. Seu elevado cargo dava maior força às
alegações. Muitos foram induzidos a se unir a ele na rebelião.
Deus, em Sua sabedoria, permitiu a Satanás continuar sua
obra, até que a atitude de desafeição amadurecesse e se tornasse uma visível
revolta. Era necessário que seus planos fossem completamente desenvolvidos,
para que seu verdadeiro caráter fosse visto por todos. Lúcifer era grandemente
amado pelos seres celestiais, e sua influência sobre eles era forte. O governo
de Deus incluía não somente os habitantes do Céu, mas de todos os planetas que Ele
havia criado. Por isso, Satanás pensou que, se pudesse levar à rebelião os
anjos do Céu, poderia também levar outros mundos. Utilizando sofismas e
mentiras, ele tinha grande poder para enganar. Mesmo os anjos fiéis não podiam
discernir perfeitamente seu caráter ou ver quais seriam as consequências
daquilo.
Satanás havia sido tão honrado, e todos os seus atos eram
tão misteriosos, que era difícil aos anjos desvendar a verdadeira natureza de
suas ações. Antes que tivesse um desenvolvimento completo, o pecado não
pareceria o mal que em realidade era. Seres santos não eram capazes de perceber
as consequências de desprezar a lei divina. Inicialmente, Satanás havia alegado
estar promovendo a honra de Deus e o bem de todos os habitantes do Céu.
Ao lidar com o pecado, Deus poderia utilizar somente a
justiça e a verdade. Satanás podia fazer uso daquilo que Deus não usaria:
lisonja e engano. O verdadeiro caráter do usurpador deveria ser compreendido
por todos. Seria necessário tempo para que ele mostrasse quem realmente é
através de suas más ações.
Satanás atribuiu a Deus a discórdia que o seu próprio
procedimento havia causado no Céu. Ele declarou que todo o mal era provocado
pela maneira como Deus administrava o Céu. Por isso, era necessário que Satanás
demonstrasse suas verdadeiras pretensões, ao revelar as consequências das
mudanças propostas na lei de Deus. Suas próprias ações deveriam condená-lo.
Todo o Universo deveria ver o enganador desmascarado.
Mesmo quando foi decidido que Satanás não poderia mais
permanecer no Céu, a Sabedoria infinita não o destruiu. A submissão das
criaturas de Deus deve ser motivada pela convicção a respeito de Sua justiça.
Os habitantes do Céu e de outros mundos, estando despreparados para compreender
as consequências do pecado, não perceberiam a justiça e a misericórdia de Deus
caso Ele destruísse Satanás. Se este fosse destruído imediatamente, os outros
teriam servido a Deus por medo em vez de amor. A influência do enganador não
teria sido completamente extinta, e nem eliminada a atitude de rebelião. Para o
bem do Universo através das futuras eras, Satanás deveria desenvolver
plenamente suas intenções, para que todos os seres criados pudessem perceber
corretamente as acusações dele contra o governo divino.
A rebelião de Satanás deveria ser para o Universo um
testemunho a respeito dos terríveis resultados do pecado. Seu governo mostraria
quais os frutos de se rejeitar a autoridade divina. A história dessa terrível
experiência de rebelião deveria ser um meio de proteção permanente a todas as
criaturas, livrando-as de cometer pecado e sofrer o castigo por ele.
Quando foi anunciado que, juntamente com todos os
simpatizantes de Satanás, ele deveria ser expulso das habitações celestiais, o
líder dos rebeldes confessou ousadamente seu desprezo pela lei do Criador.
Denunciou os estatutos divinos como restrição à sua liberdade e declarou que
seu objetivo era conseguir a abolição dessa lei. Livres dessa restrição, os
anjos poderiam alcançar condição de existência mais elevada.
Satanás e suas hostes lançaram a culpa de sua rebelião sobre
Cristo. Afirmaram que, se não houvessem sido censurados, não teriam se
rebelado. Eram obstinados e arrogantes, ao mesmo tempo que, blasfemando,
pretendiam ser vítimas inocentes do poder opressor. Em resultado disso, o
grande rebelde e seus seguidores foram banidos do Céu (veja Apocalipse 12:7-9).
A atitude de Satanás ainda inspira a rebelião na Terra,
entre os desobedientes. Assim como ele, muitos pretendem que os seres humanos
alcançam liberdade ao transgredir a lei de Deus. A reprovação ao pecado ainda
desperta ódio. Satanás leva as pessoas a justificar-se e a procurar o apoio de
outros em seu pecado. Em vez de corrigirem seus erros, indignam-se contra
aquele que aponta os erros, como se fosse ele a causa do problema.
Assim como, no Céu, Satanás representou de maneira
distorcida o caráter de Deus, fazendo com que Ele fosse considerado severo e
tirano, Satanás induziu a humanidade a pecar. Declarou que as injustas
restrições de Deus haviam levado o ser humano à queda, assim como determinaram
sua própria rebelião.
Banindo Satanás do Céu, Deus demonstrou Sua justiça e honra.
Entretanto, quando o ser humano pecou, Deus ofereceu uma prova de amor,
entregando Seu Filho para morrer pela raça pecadora. Em Cristo, o caráter de
Deus é revelado. O poderoso argumento da cruz demonstrou que o governo de Deus
não era a causa do pecado. Durante a vida terrestre do Salvador, o grande
enganador foi desmascarado. Sua pretensão, ousada e blasfema, de que Cristo
deveria adorá-lo (veja Mateus 4:8-10), a contínua maldade que atacava Jesus de
um lugar a outro, inspirando o coração de sacerdotes e povo a rejeitar Seu
amor, e o brado: "Crucifica-O! Crucifica-O!" – tudo isso despertou o
assombro e a indignação do Universo. O príncipe do mal exerceu todo o seu poder
e engano para destruir Jesus. Satanás utilizou seres humanos como seus agentes,
a fim de encher de sofrimento e tristeza a vida do Salvador. Os fogos da inveja
e maldade, ódio e vingança, irromperam na cruz contra o Filho de Deus.
Na cruz, a culpa de Satanás foi claramente apresentada. Ele
revelou seu verdadeiro caráter. Suas mentirosas acusações contra o caráter de
Deus apareceram como realmente são. Ele havia acusado a Deus de exaltar a Si
mesmo ao requerer obediência de Suas criaturas, e declarara que, embora o
Criador exigisse abnegação de todos os outros, Ele próprio não a praticava e
não fazia sacrifício algum. Na morte de Cristo, foi visto que o Governante do
Universo havia realizado o máximo sacrifício que o amor poderia efetuar, pois
"Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo" (2 Coríntios
5:19). Cristo, a fim de destruir o pecado, humilhou-Se e foi obediente até a
morte.
Todo o Céu viu a justiça de Deus revelada. Lúcifer havia
declarado que a raça pecadora estava além da possibilidade de salvação. Mas a
penalidade da lei recaiu sobre Jesus, que era igual a Deus, permitindo ao ser
humano aceitar a salvação e, através de arrependimento e humildade, triunfar
sobre o poder de Satanás.
Mas não foi meramente para salvar o ser humano que Cristo
veio à Terra e aqui morreu. Ele veio para demonstrar a todos os mundos que a
lei de Deus é imutável. A morte de Cristo prova que ela não pode ser modificada
e demonstra que a justiça e a misericórdia são o fundamento do governo de Deus.
Na execução final do juízo, será visto que não existe motivo para o pecado.
Quando o Juiz de toda a Terra perguntar a Satanás: "Por que você se
rebelou contra Mim?", o originador do mal não poderá apresentar resposta
alguma.
No grito agonizante do Salvador na cruz – "Está consumado!"
– soou a sentença de morte de Satanás. O grande conflito foi resolvido naquele
momento, a eliminação definitiva do mal se tornou certa. "Vem o dia,
ardente como uma fornalha. Todos os arrogantes e todos os malfeitores serão
como palha, e aquele dia, que está chegando, ateará fogo neles, diz o Senhor
dos Exércitos. Não sobrará raiz ou galho algum" (Malaquias 4:1).
O mal jamais se manifestará outra vez. A lei de Deus será
honrada como a lei da liberdade. Criaturas provadas nunca mais se desviarão da
fidelidade Àquele cujo caráter foi manifestado como expressão de amor ilimitado
e infinita sabedoria.
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